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O Sal da Terra

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Acabei de assistir o documentário sobre o trabalho de Sebastião Salgado, e embora faltem palavras para organizar e assimilar o misto de sentimentos que esse documentário trouxe, existe uma urgência tão grande em colocar pra fora todo esse turbilhão – quem sabe numa tentativa de serenar de novo a alma – que a inquietude depois dessas duas horas de filme não me deixou simplesmente deitar e dormir.

Já imaginava que não seria um filme qualquer. Já imaginava que teria muita sensibilidade e força, assim como o trabalho desse fotógrafo, que na minha humilde opinião é um dos caras mais relevantes na fotografia… daqueles brasileiros que nos faz encher o peito de alegria em falar que compartilhamos pelo menos a mesma pátria de origem.

O filme não é uma mera exposição reunida dos trabalhos de Salgado… é mais. Um filme que faz a gente chorar e se emocionar só de lembrar das imagens que vimos, tem um poder muito maior que ser apenas uma seleção de trabalhos para relembrar. Eu que não sou jornalista, tenho dificuldade para definir o que foram essas duas horas de filme. Faltam palavras pra descrever, talvez porque nós simplesmente não estamos mais condicionados a sentir tudo assim, tão a flor da pele como o filme e o trabalho do Salgado nos traz.

É admirável a dedicação da própria vida para mostrar ao mundo tudo o que poderíamos ver por aí, se tivéssemos metade da coragem e empenho que ele teve e tem, superando desafios, vivenciando situações extremas para nos mostrar o que ele viu. E viu tanta coisa… coisas belas, coisas tristes, coisas aparentemente simples que ele tem o dom de fazer brilhar aos nossos olhos, e coisas tão importantes que nos fazem até pensar: o que será que eu estou deixando como legado nessa minha vida?

Quem já admirava os trabalhos dele sabe o quão incisivo é cada clique, como os olhares por ele captado parecem nos deixar nus, despidos de qualquer proteção sensorial e até constrangidos por sermos inseridos de forma tão abrupta em cenas tão íntimas daqueles seres humanos, estando nós assim, tão confortavelmente vestidos, alimentados, com lares e famílias que mesmo tendo problemas como qualquer outro, nem se compara ao que aquelas pessoas dos retratos nos mostram. Mas o filme traz mais que isso… não é apenas o resultado final de toda essa sensibilidade e do trabalho impecavelmente executado. Traz também o contexto do clique, a reflexão numa conversa intimista  e realista sobre como aquela determinada cena inspirou o fotógrafo, e acima de tudo como aquele momento influenciou o ser humano que é Sebastião Salgado, e todos nós também.

A brevidade do tempo, o segundo que fica ali, eternizado… tudo é tão etéreo e ao mesmo tempo tão intenso. Milhares de histórias e sonhos sendo desconstruídos na dura realidade para serem construídos novamente, nesse nosso contexto de expectador. Não é fácil falar da percepção que temos sobre algo que nem vivenciamos totalmente, e ainda mais difícil tentar expressar o que nem conseguimos imaginar viver… estar no meio de um contexto tão real e doloroso que parece gerar um efeito contrário, de anestesiamento da alma, onde toda a vida perde o sentido de sobrevivência. Qualquer palavra que tente expressar o sentimento é ínfima perto da realidade de quem viveu. Resta apenas aquele sentimento que entra no nosso peito, vai até a boca do estômago e cria um agitamento moral tão grande que nos desperta.

No mínimo curioso perceber (ou lembrar) que em pleno século 21 ainda existem seres humanos como nós, vivendo em condições tão diferentes. Falo de alguns casos mostrados ali no filme, e então não digo que são condições difíceis e nem precárias, pois no fundo fica o questionamento sobre toda aquela simplicidade: quem será que é mais feliz? Quem vive mais em harmonia com o seu habitat? Quem é que corrói a alma com os maus hábitos, e desaprende fundamentos até então intuitivos da moral? Quem é que esquece o que é respeito e a paciência com o tempo? Não esse tempo que tentamos incessantemente controlar, mas aquele que passa rápido e nem percebemos o que estamos fazendo para preenchê-lo.

Por trás de todo esse legado ainda existe uma mulher incrível, que não só compreende essa alma inquieta, como estimula e o acolhia a cada retorno após as longas temporadas distante. Orquestrava junto toda essa linda melodia de sensibilidades, histórias, pessoas e lugares, além dos próprios dilemas e dificuldades que um núcleo familiar já demanda e são apenas citadas rapidamente no filme. Salgado vive para o mundo, muito além do seu próprio núcleo familiar, e não é nada fácil lidar com tudo isso também, além de inspirar todo esse processo criativo.

Fica ainda o aprendizado do que é reinventar-se e redescobrir-se no trabalho, vendo ainda a beleza no mundo à sua volta… ter a coragem de desnudar o coração  mais uma vez – este, que nos afeta de forma tão íntima – e ainda permitir-se sentir e transbordar essa sensibilidade nos projetos profissionais, mesmo depois de ter visto tanta coisa que ninguém nunca deveria ter visto, e muito menos vivido. Saber perdoar a humanidade por tudo isso que nos causamos diuturnamente a tanto tempo, milênios… e reverter todas essas histórias em combustível e bagagem para mostrar que há muito mais. Saber renovar as esperanças no homem, fazendo a sua parte na reparação do que foi destruído… e que bela parte!

A verdade é que mesmo eu tentando organizar esses sentimentos todos que afloraram, não é suficiente pois só você terá a exata percepção de como tudo isso te toca. E a reflexão sobre todo esse lindo trabalho já é valida, mas Salgado nos faz querer mais…

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